29 de mai. de 2015

10 (ótimos) filmes sobre diferenças - Parte I


10 bons filmes de ficção sobre diferenças

Olá queridos,

Há tempos eu comecei a fazer esta lista, mas só hoje me dei conta que nunca a terminei. É a primeira parte dos 10 longa-metragens de ficção que abordam a questão da inclusão e das diferenças que me marcaram muito. Pensei em filmes que tratassem de diferentes temas e que fossem fáceis de encontrar, por isso, não serão filmes "surpreendentes". São filmes, em certa medida, óbvios, talvez você já tenha assistido a vários deles, mas mesmo assim, são tão bons que merecem ser relembrados.
  1. Filhos do silêncio




    Filme de 1986, a sinopse é a seguinte: Um professor de uma escola para deficientes auditivos e surdos conhece uma moça surda que vive isolada e se recusa a seguir os métodos próprios para o ensino. Então, ele a encara como um desafio. Porém, com o tempo, ele acaba se apaixonando e desenvolve um romance com sua aluna.

     
    Para além do romance, o filme trata da questão da identidade surda, preconceitos e diferenças de uma forma muito bem feita. A atriz surda Marlee Matlin ganhou o Oscar como melhor atriz por este trabalho! 




  2. Edward Mãos de tesoura


    Clássico dos anos 90, eu fico me perguntando se as crianças de hoje em dia conhecem a história do menino (o que ele é, eu não sei!!!) tipo um Frankenstein doce e amável, que no lugar das mãos tem tesouras. E como as pessoas o veem, tão sensível e ingênuo, e se relacionam com ele, é um espelho de nossa sociedade.













3. A Cura

Outro filme lindo dos anos 90, fala sobre amizade, preconceito, tolerância.
Sinopse: Erik (Brad Renfro) é um garoto solitário que atravessa todas as barreiras que o preconceito ergueu e se torna amigo do seu vizinho Dexter (Joseph Mazzello), que tem AIDS. Erik se torna muito ligado a Linda (Annabella Sciorra), a mãe de Dexter, e na verdade fica mais próximo dela que da sua própria mãe, Gail (Diana Scarwid), que é negligente com ele e quase nunca lhe dá atenção. Quando os dois garotos lêem que um médico de Nova Orleans descobriu a cura da AIDS, tentam chegar até ele para conseguir a cura.





4. Mar adentro

Primeiro filme que vi com o excelente ator Javier Bardem, fala sobre as limitações e os sonhos de um tetraplégico que luta para ter o direito de tirar sua própria vida. Independente de sua opinião pessoal sobre a eutanásia, o filme fala sobre respeitar a dor do outro, sobre as dores de cada um, é poético e inspirado em uma história real. Eu gosto muito das histórias paralelas, dos personagens coadjuvantes que rodeiam o personagem principal e recomendo muito!












5. As sessões

Quando assisti ao filme, em janeiro de 2013, fiz um post mais completo (aqui)
A história fala sobre a deficiência a partir da perspectiva da sexualidade, pouco abordada pelo cinema, e, por isso mesmo, que desperta a curiosidade das pessoas. 
É outra história baseada em uma experiência real, vivida pelo jornalista e poeta Mark O'brian.
Helen Hunt foi indicada, naquele ano, para o prêmio de melhor atriz coadjuvante, que acabou ficando com Anne Hathaway por "Os Miseráveis".



E você, que filmes indicaria para a segunda parte da lista? Conhece os filmes acima? Comente!

28 de mai. de 2015

Peça "Tribos" em Porto Alegre

Em 2013 divulgamos aqui no blog uma entrevista exclusiva com o ator Bruno Fagundes, sobre a peça "Tribos", que aborda o tema da surdez, em que ele produz e atua junto com o pai, o também ator Antônio Fagundes.
Agora, em maio de 2015, a peça chegará a Porto Alegre, no lindíssimo Theatro São Pedro.

As sessões ocorrerão nos dias 30 e 31 de Maio (sábado e domingo). As sessões do dia 30 serão às 18h e às 21h. No domingo, apenas às 17h. Depois de cada sessão haverá um bate-papo com o elenco sobre a peça e a sessão das 21h do sábado contará com intérprete de Libras.

Os preços variam entre R$ 40,00 e R$150,00, e há desconto para estudantes e idosos.

Maiores informações no site do Theatro.


17 de mar. de 2015

Abertas as inscrições para o curso "Introdução ao Ensino de Língua Portuguesa para Surdos"

CURSO DE EXTENSÃO EAD 2015/1
INTRODUÇÃO AO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA PARA SURDOS


O curso de extensão "Introdução ao ensino de Língua Portuguesa para surdos" está de volta, na modalidade a distância, através da plataforma Moodle.

O curso de extensão Introdução ao Ensino de Língua Portuguesa para Surdos busca discutir noções básicas a respeito da disciplina Língua Portuguesa para Surdos (LP/S) e suas especificidades, possibilitando que o aluno tenha contato com conceitos pertencentes à educação de surdos, histórico da educação de surdos, metodologias, legislação e abordagens educativas que a contemplam, podendo assim, problematizar a respeito dessas questões.

Nesta edição, contaremos com a colaboração do Professora Fernanda Falkoski ministrando um tópico sobre Letramento de surdocegos.

Objetivos
Possuir acesso à internet e conhecimentos básicos de informática; Ter disponibilidade de 3 horas semanais, em média, para as leituras e realização das atividades assíncronas do curso; Ter disponibilidade de participação em um dos grupos de chat, com duração de uma hora cada, nos dias e horários pré-definidos.

Será fornecido para aqueles que tiverem, no mínimo, 75% de frequência, e grau final 7,0.

Para maiores informações e para realizar sua matrícula, clique aqui.

Você pode registrar suas dúvidas aqui nos comentários. 

Abraço!

20 de fev. de 2015

Abertas as inscrições para o curso de TILS da Ulbra (2015)

Pessoal,

Estão abertas as inscrições para a 7ª edição do curso Tradutor Intérprete de Língua de Sinais (TILS) da Ulbra de Canoas (Rio Grande do Sul). O curso tem sido um sucesso e já formou diversos profissionais ao longo dos anos. Conheço o curso pessoalmente, por isso indico! Se você tem o desejo de se profissionalizar como TILS esta é uma ótima oportunidade, não perca. 

Seguem, abaixo, mais informações.

Curso: Tradutor Intérprete de Língua de Sinais - 7ª Edição

 Dúvidas e informações
Extensão e Cultura:
Prédio 6  Sala 121
Fones: (51) 3477.9103 e 3477.9166 

E-mail: secextensao@ulbra.br

» Apresentação: O curso proporciona à capacitação dos Tradutores/Intérpretes de Libras na formação profissional. Fomentando discussões sobre ética, criticidade tradutória e nos processos reflexivos no ato tradutório junto à comunidade surda. Habilitando-os a atuar em diversos espaços sociais onde haja necessidade de interpretação/tradução Português/Libras e Libras/Português como: instituições de educação nos seus diversos níveis; instituições públicas ou privadas de atendimento à população; eventos científicos; reuniões e/ou assembleias; atendimento na área da saúde e outros.  O curso estabelece condições para aprendizado a partir do contato com a Comunidade Surda usuária da Libras, repensando assim a atuação do Tradutor/Intérprete perante esta comunidade e a sociedade em geral.
» Objetivos: Proporcionar uma formação básica para Tradutores/Intérpretes de Libras que atuarão nos espaços educacionais e outros.
» Público-alvo: Profissionais que já atuam sem formação, pessoas fluentes em Língua Brasileira de Sinais que desejam fazer uma formação especifica em tradução e interpretação de Libras.
» Conteúdo Programático:
  • ·         Settings e Interpretação: espaços sociais e educacionais.
  • ·         Estudos Linguísticos da Língua Portuguesa para tradução.
  • ·         Estudos Linguísticos da Libras :Língua de Sinais Brasileira.
  • ·         Língua de Sinais para interpretação.
  • ·         Tópicos em Ética na Tradução/Interpretação.
  • ·         Tópicos em Teoria da Tradução/Interpretação.
  • ·         Tópicos em interpretação I: terminologia, versão e gêneros textuais.
  • ·         Tópicos em interpretação II: Prática de interpretação consecutiva.
  • ·         Tópicos em interpretação III: Prática de interpretação simultânea.
  • ·         Corporeidade: aspectos teóricos e práticos.
  • ·         Deafhood – Introdução aos Estudos Surdos.
  • ·         Estudos da Tradução: Linguagem, processo e fidelidade.
  • ·         Prática de Estágio.
  • ·         Simpósio de interpretação.
» Pré-requisitos: Banca de Avaliação de entrada no curso:
A banca de seleção é constituída por uma testagem de aquisição de linguagem, aplicada para verificar o nível de conhecimento linguístico dos discentes.
Custo de banca: é totalmente gratuito para os candidatos, sendo que todos avaliadores são professores do curso.
Avaliação (Banca): Consiste avaliar o uso da Libras, em momentos lúdicos e usual como conversação.
Metodologia: Uso de recursos lúdicos, filmagens e exposição de diálogos.
Datas das bancas
Dias 21 e 28 de Fevereiro; e 07 de Março de 2015.
Resultados
Dia 27 de Fevereiro e 09 de Março de 2015.
Matriculas
De 27 de Fevereiro a 19 de Março de 2015.
» Modalidade: Presencial
 » Local: ULBRA Canoas     Prédio: A definir        Sala: A definir
 » Período: De 11 de Abril de 2015 a Julho/2016
 » Horário: Sábados das 09:00h às 18h  
 » Carga horária: 465h/a
 » Investimento:
ENTRADA DE R$ 350,00
09 PARCELAS DE R$ 286,67 com boletos bancários entregues ao aluno.
 » Vagas: 25
» Ministrantes: Diversos Professores.
Para conhecer mais o curso, acesse o link: https://www.youtube.com/watch?v=CsW8Sy6dSXQ
Fonte: http://www.ulbra.br/extensao/curso.php?id=636 (MAIORES INFORMAÇÕES)

7 de fev. de 2015

Por que é que a Libras é uma língua? (e o que minha dissertação tem a ver com essa questão)

O que faz da Libras uma língua, e não estritamente uma linguagem?! E, qual a diferença entre língua e linguagem? O que uma língua tem de tão característico que a faz ser o que é? O que confere a uma língua o seu status de língua? O que é uma língua? Por que é que quando as pessoas falam que não sabem a linguagem dos surdos (e mudos), tem sempre alguém que replica dizendo que não é linguagem dos surdos...é a LÍNGUA dos surdos, poxa?!!

Esse foi basicamente o questionamento que guiou meu percurso de estudos na pós-graduação em Letras. Eu já havia estudado linguística durante quatro anos na graduação (sou formada em licenciatura Português-Inglês pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul), e em nenhuma disciplina do curso eu havia escutado alguém falar linguística ou literariamente com mais detalhes sobre as línguas visoespaciais, as línguas de sinais, e, dentre elas uma das que se fala no Brasil, a Língua Brasileira de Sinais, mais conhecida por sua sigla: Libras. O currículo da faculdade, nesse aspecto, não me contemplou, mas minha formação complementar (seis cursos de Libras + curso de tradutora-intérprete de Libras) e minha curiosidade abriram um caminho, e eu me toquei por ele. Acho que isso é o que faz a gente desenvolver uma pesquisa, a continuar estudando e a estudar mais. Por que é que a Libras é uma língua?

Na pós-graduação, as disciplinas, bastante teóricas, foram como placas indicativas no caminho que eu estava trilhando (volte ao primeiro parágrafo e relembre o que me movia). Elas indicavam alternativas de rotas para eu chegar mais perto de responder por que é que a Libras é uma língua. Como eu disse: rotas alternativas - plural, indicando mais de uma possibilidade. Quando cheguei nesse ponto eu já fiquei bastante satisfeita pois minha caminhada estava consolidada, e daquela trilha eu não sairia mais: estudar linguisticamente a Libras. Mas aí, tive que escolher por uma só rota (naquele momento!) para continuar minha jornada. Não me detive muito tempo nessa encruzilhada pois eu já havia defendido um trabalho de conclusão de curso sobre transcrição de Libras, no qual mobilizara uma teoria que fazia todo o sentido (e forma) pra mim - a Linguística da Enunciação, e resolvi seguir por seu campo. Contudo, minha questão era bem básica - por que é que a Libras é uma língua -, e necessitava de um suporte mais básico do que a Enunciação (que é uma Linguística tributária do pensamento Saussuriano [lê-se "sôciriano"]). A companheira de percurso então, foi a Linguística tributária de Ferdinand de Saussure.


[Saussure mostrando o sinal para a noção de "signo" haha, que ele tanto teorizou a respeito]

Esse senhor foi um baita professor, que no início do século XX, ministrou umas aulas na Universidade de Genebra. As aulas dele eram tão interessantes e legais que alguns de seus alunos anotavam tudinho que ele falava e explicava (ou vai ver que era os alunos é que eram excelentes, por anotarem as aulas haha). O professor não teve uma vida muito longa, mas as anotações dele e também as de seus alunos renderam tanto que se tornaram um dos pilares de uma ciência chamada Linguística, viraram livros, e até hoje tem gente que os estuda, e muito, e produz muito também, a partir dessa Linguística. Bom, lembram da encruzilhada em que eu estava? Agora eu tinha me colocado numa avenida, de duas vias: a Libras e a Linguística de Saussure, e estava confortável para caminhar. Andei aproximadamente por dois anos e a linha de chegada foi a defesa da dissertação de mestrado, intitulada O ESTATUTO LINGUÍSTICO DAS LÍNGUAS DE SINAIS: A LIBRAS SOB A ÓTICA SAUSSURIANA. O título é assim, bem grande (mas o trabalho em si nem tanto, no total tem umas 100 páginas), porque contempla os três principais tópicos que abordei no trabalho: as línguas de sinais, Ferdinand de Saussure e o estatuto linguístico. Essas são as palavras-chave do minha dissertação e o resumo dela, eu compilo aqui pra vocês:

A presente dissertação consiste numa pesquisa de caráter teórico linguístico. O objetivo é o de oferecer uma rediscussão do estatuto linguístico das línguas de sinais com base na Linguística tributária a Ferdinand de Saussure. Interessa aqui a teoria linguística e suas implicações sobre o objeto língua. Revisar o estatuto linguístico de uma modalidade de língua que desafia muitos dos parâmetros de teorias já consolidadas no campo dos estudos da linguagem acarreta um novo olhar sobre o objeto. Assim, na primeira parte desta dissertação é apresentada uma retrospectiva sobre a consideração das línguas de sinais como instrumento de ensino, como objeto de pesquisa linguística e como tal, enquanto passível de análises essencialmente linguísticas. Para isso retoma-se a vida e a obra dos seguintes pesquisadores, precursores no estudo das línguas de sinais: o francês Charles Michel l’Épée e o norte-americano William C. Stokoe. Além deles, considera-se a contribuição de alguns estudos específicos sobre a linguística da língua de sinais brasileira (Libras). Na segunda e terceira partes, revisa-se a teoria linguística saussuriana, seus princípios e elementos constitutivos, aproximando-a das línguas de sinais. Com esse movimento de aproximação, ambos os campos sofrem efeitos: as línguas de sinais passam a ser consideradas com o estatuto linguístico conforme outras línguas, e a Linguística saussuriana passa a ser deslocada para contemplar teoricamente as especificidades das línguas de sinais. Este trabalho justifica-se por mobilizar áreas distintas do conhecimento – a epistemologia linguística saussuriana e seus desdobramentos teóricos, e os estudos linguísticos das línguas de sinais – na busca por esboçar novos rumos para a reflexão linguística, em si mesma, e no tocante às línguas de sinais.

Daí vocês vão me perguntar, tá, Laura, e tu resolveu tuas questões?! Encontrou as respostas??! O que faz da Libras uma língua, afinal?!

A resposta, e muitas outras explicações para essa e outras questões, vocês encontram aqui.


13 de jan. de 2015

Estuda, Renata, Estuda!

Estava eu assistindo ao programa Fantástico, domingo, dia 11/01/2015, quando o programa exibe uma matéria sobre turismo acessível. Embora a ênfase maior fosse para cadeirantes, lá pelo final da matéria aparece a Renata Ceribelli em um restaurante atendido por surdos no Canadá. A proposta do restaurante é incrível: os cardápios estão em língua de sinais, através de desenhos daqueles sinais, juntamente com a descrição do prato, e os atendentes são surdos. 
Para quem quiser saber mais sobre o restaurante, ele se chama Signs, e o site dele é este.


Nas imagens acima, capa do cardápio do restaurante e sinais para conversação básicas na língua de sinais americana.

Mas, como normalmente acontece quando assisto a matérias sobre acessibilidade/surdez na televisão, a alegria dura pouco. Logo a repórter lança aqueles termos antigos e ultrapassados, de uma vez só: o restaurante de SURDOS MUDOS onde se usa a LINGUAGEM DE SINAIS. Me senti frustrada, mas nada surpresa, afinal, toda a vez que uma reportagem é feita sobre o assunto, esses termos que nós lutamos tanto para esclarecer voltam à tona. Eu nem me presto muito a brigar cada vez que isso acontece. Me dá preguiça. Mas aí li na postagem de um amigo, o Vinícius (intérprete de Libras, professor, mestrando, formador de intérpretes e professores de surdos) um desabafo, ele mesmo não aguentando mais tanto descaso. Alguém comentou na postagem dele que era falta de informação, por isso os jornalistas usavam os termos errados. A esse comentário, Vinícius respondeu que essa desculpa não era mais aceita no mundo em que vivemos, com tanta informação e repetição desse discurso, isso já era preconceito com a comunidade surda. Essa resposta me chamou a atenção, e dei toda a razão pra ele. 
Primeiramente, a repórter não chamou as pessoas com deficiência física da reportagem de aleijados, mas de cadeirantes. Quando eu era criança e não conhecia nada sobre acessibilidade, se chamavam os cadeirantes de aleijados, Era normal. Porém, era um termo bastante pejorativo e foi substituído por cadeirante, bem mais condizente com a realidade das pessoas que precisam de uma cadeira de rodas para se locomover. Mas por que os surdos continuam a ser chamados de SURDOS MUDOS? Surdo e mudo são coisas diferentes. Minha mãe (que também não tinha nenhuma informação sobre isso na minha infância) me dizia: todo surdo é mudo, mas nem todo mudo é surdo. MENTIRA! Quase nenhum surdo é mudo (eu não conheci nenhum, NUNCA), embora todos os surdos que eu conheci conseguissem falar oralmente. Quando não o faziam era por uma opção pessoal, ou porque se sentiam mais confortáveis apenas sinalizando, ou porque não foram educados para isso, mas com treinamento, os surdos falam sim. Surdez é uma coisa e Mudez é outra. Não se diz mais SURDO MUDO há dezenas de anos, e foi a primeira coisa que aprendi quando comecei a me interessar pelo assunto, quando eu tinha uns 18 anos, era apenas uma estudante e o acesso à internet e informação era menor do que agora. Então por que existe tanta resistência dos jornalistas em pesquisar um pouco antes de produzir uma reportagem que é veiculada em um programa de televisão assistido por centenas de milhares de pessoas como o Fantástico? Repetir esses conceitos errôneos apenas reforça o preconceito que já atrapalha tanto a vida dos surdos; reitera que eles são incapazes de aprender outras línguas, que a comunicação com eles é difícil, que eles não conseguem entender os ouvintes; dificulta a inserção dos surdos no mercado de trabalho, na escola, na universidade e o acesso deles aos meios culturais e de informação, o que é um erro. 
Em segundo lugar, outra falácia transmitida nessa reportagem é de chamar a língua de sinais de LINGUAGEM DE SINAIS. Parece bobagem, parece um detalhe, mas não é. Da mesma forma, LÍNGUA é uma coisa e LINGUAGEM é outra. Existem vários tipos de linguagem: a linguagem do computador, da internet, a linguagem dos golfinhos, a linguagem do amor. E existem línguas, com suas características próprias, podem ser gestuais ou orais, e normalmente se estabelecem em determinados espaços geográficos: inglês, português, francês, alemão, Libras, ASL, e por aí vai. Por isso, falar "linguagem de sinais" é errado, porque transmite a ideia equivocada de que existe uma linguagem de sinais que seria universal, intuitiva, e que todos os surdos do mundo a usariam. Na reportagem, é possível perceber esse erro. No trecho em que a repórter Renata entra no restaurante ela fala: "Eu confesso que eu fico envergonhada de saber tão pouco sobre a linguagem dos sinais". Renata, você pode se envergonhar em não saber a Libras, língua de sinais do seu país, mas não se envergonhe por não conseguir se comunicar com os surdos canadenses, pois eles usam outra língua de sinais, então, é praticamente impossível você saber todas as línguas de sinais do mundo, assim como é praticamente impossível saber todas as línguas orais do mundo!

A repórter do Fantástico, Renata Ceribelli, sinalizando em um restaurante
Barros (2013) esclarece que, no Canadá, são usadas duas línguas de sinais diferentes: a ASL (Língua de Sinais Americana) e a LSQ (Língua de sinais do Quebec), assim como no Brasil, onde se usa a Libras (Língua Brasileira de Sinais) e a Língua de Sinais Urubu-Kaapor (língua dos índios Urubu-Kaapor do sul do Maranhão). Ou seja: surdos se comunicam através de LÍNGUAS DE SINAIS, que possuem todas os parâmetros para serem consideradas línguas, possuem gramática, sintaxe, variação linguística, não são universais e nem intuitivas, ou seja, precisam ser aprendidas ou adquiridas.
Quero deixar claro que não tenho nada contra a repórter Renata Ceribelli, inclusive gosto bastante dela, mas os jornalistas têm a obrigação de se informarem antes de disseminarem conceitos errados que vão contra toda a luta da comunidade surda, há tantos anos, no nosso país.

Referências do texto



18 de dez. de 2014

Entrevista sobre surdocegueira, com Fernanda Falkoski

Olá queridos,

É com muita alegria que retomo as postagens do blog depois de iniciar essa vida corrida, agitada e maravilhosa da maternidade!
Hoje publico uma entrevista muito interessante com Fernanda Falkoski, uma jovem educadora que tem se dedicado a ensinar surdocegos. Apesar de ter apenas 25 anos, a jovem professora nascida em Canoas e que atualmente reside em Novo Hamburgo, RS, é formada em curso de Magistério, Letras-Português pela UNISINOS, Tradutora/Intérprete de Libras  pela ULBRA, além de vários cursos na área de cegueira. Atualmente cursa Pedagogia pela UNISINOS, e cursa pós-graduação em Neuroeducação e Educação Inclusiva – Capacitar NH. Em nossa entrevista ela compartilha conosco como tem sido ensinar surdocegos na rede regular de ensino.


Vendo Vozes: Como surgiu seu interesse por temas como surdez e surdocegueira?

Fernanda: Iniciei os cursos de libras, mas não tinha nenhum contato com pessoas surdas, ao me formar no magistério fui chamada para assumir uma turma de alunos surdos e a partir dai senti a necessidade de buscar mais conhecimentos na área. Após esse trabalho fui transferida para uma escola de educação infantil para trabalhar com alunos surdos de 2 e 3 anos, fiz mais algumas formações na área e parti para o curso de Tradutor/Intérprete de Libras e cursos de braile, mas sem ter interesse por surdocegos.
No curso de Tradutora/Intérprete de Libras tive meu primeiro contato com a surdocegueira, através de falas dos professores e um filme, "Black", nesse período estava começando a pensar no Trabalho de Conclusão de Curso da faculdade de Letras, então pensei: Porque estudar sobre surdos se poderia conhecer sobre surdocegos? Então comecei a conversar com pessoas sobre esse meu interesse, mas não tinha nenhum contato com pessoas surdocegas.
No ano de 2011 na van em que eu ia para a faculdade, uma amiga me disse que trabalhava perto da minha casa e que lá tinha um menino surdocego matriculado, logo pensei, tenho que conseguir contato. Então fui até a escola, conversei com a equipe diretiva que me encaminhou para a secretaria de educação do município de Novo Hamburgo e passei a interagir com esse menino.
A partir dai fui em busca de cursos, leituras e referência que pudessem auxiliar nessa busca pela conhecimento da surdocegueira, mas infelizmente encontrei pouco material, poucas referências, mas consegui o contato com um surdocego Alex Garcia que foi a pessoa que me auxiliou muito no início desse trabalho. Consegui o contato dele e nos encontramos para conversar, ele me explicou algumas coisas, me deu dicas e materiais de consulta, já que aqui no RS não temos cursos na área.
Em 2012 acabei sendo contratada pelo município de Ivoti, pois eles tinham uma aluna cega e precisam de alguém que conseguisse trabalhar com ela, trabalhei durante 6 meses com ela e fui transferida para outra escola do município que também tinha um menino surdocego. Foi com o estudo de caso desse menino que fiz meu Trabalho de Conclusão de Curso.
Desde então busco formações, contatos, escrevo sobre o assunto, ainda tenho contato com as crianças, mas não dentro de escolas, mas informalmente. Hoje também conto com a parceria de Habdel Hussein, também surdocego adulto, que auxilia nesse trabalho.
E assim é um pouco da história de como surgiu meu interesse pela área.

Vendo Vozes: Qual são os principais desafios para quem atua nestas áreas?
Fernanda: O principal desafio é um pouco a falta de interesse dos municípios em investir nesses casos, sabemos que não são apenas esses dois meninos que conheço que são surdocegos, mas onde estão os outros? Quem trabalha com eles?
Quando faço esses questionamentos, muitas vezes recebo a resposta estão sendo atendidos dentro das possibilidades, mas o que me deixa triste é saber que tenho um pouco a oferecer e não tenho oportunidade em poder ajudar, passar um pouco do meu conhecimento, dos meus estudos e vivências nessa área.

Vendo Vozes: Como um educador que pretende se especializar nestas áreas pode proceder? Onde há cursos ou material sobre o assunto?
Fernanda: Infelizmente não temos cursos nessa área, poucos materiais publicados. Quem quer trabalhar com surdocegos precisa correr atrás de pessoas que trabalham ou trabalharam, que pesquisam esse assunto, pois se esperar por cursos, não conseguirá nada.

Vendo Vozes: Atualmente, as escolas estão preparadas para atender alunos surdocegos? Como elas podem se preparar?
Fernanda: As escolas não são preparadas para trabalhar com crianças surdocegas, falta organização estrutural, materiais, e principalmente professores qualificados. Tenho um projeto de trabalho com alunos surdocegos, mas ainda não consegui coloca-lo em prática devido a falta de interesse dos municípios.

Vendo Vozes:Qual conselho você daria para os pais de uma criança surdocega que não sabem como proceder com a educação de seu filho ou o que ele é capaz de aprender?

Fernanda: Primeiro é acreditar no potencial de seu filho, todos podem aprender, todas as pessoas têm esse direito. Cabe a família acreditar e buscar recursos, informações e ações que possam ser feitas pelas crianças surdocegas. Por mais difícil que seja, não desista mesmo que sejam muitos os desafios a serem superados. Busque o máximo de informações sobre a deficiência, mas não encare como uma deficiência e sim como um jeito diferente de se viver.

Vendo Vozes: Por favor, deixe uma mensagem aos leitores que possuem interesse em se especializar nesta área.
Fernanda: A primeira coisa que digo é não se pode desistir, serão muitos os obstáculos, mas é possível buscar formação na área com os profissionais que já trabalham, me coloco a disposição para esclarecimento de dúvidas e conversar mais sobre o assunto.

Vendo Vozes: Como os leitores podem entrar em contato contigo?
Fernanda: Quem tiver interesse ou curiosidade no assunto, pode escrever para o e-mail: fezinha_noia2@hotmail.com, pode me adicionar no Facebook Fernanda Cristina Falkoski, ou então escrever no blog: http://consolinesc.blogspot.com.br/

Vendo Vozes: Existem materiais, pesquisas e artigos já publicados por ti ou sobre teu trabalho? Como ter acesso a eles?
R: Sim tenho algumas publicações na área e também meu TCC que possam enviar caso tenham interesse:

Artigo “Inclusão de surdos na educação infantil: aquisição e desenvolvimento da língua de sinais”, publicado na revista Arqueiro n°24 (INES)

Artigo “Promovendo o ensino-aprendizagem e a efetiva inclusão de aluno surdocego pré-linguístico em escola regular” (acesse aqui)

Artigo publicado na revista Aprendizes – Ivoti.
Dialogando sobre aquisição da linguagem e surdocegueira”. (acesse aqui)

Artigo: “Surdocegueira: aprendendo pela proximidade”, publicado na Revista Reação. Ano XV - nº 87. Julho/Agosto de 2012. Caderno Técnico Científico, Volume 77, pág. 2 e 3.

Artigo: “Aluno surdocego pré-simbólico: linguagem, língua e escola” (acesse aqui)





Descrição das imagens: à esquerda, Fernanda com sua toga de formatura do curso de Letras; à direita, Fernanda apresenta um trabalho acadêmico, ao lado de um texto projetado em uma parede.









Agradecemos à Fernanda pela disponibilidade da entrevista. 
Comente conosco sua opinião sobre o assunto!

10 de set. de 2014

Edição da RBLA sobre educação de surdos

O novo número da Revista Brasileira de Linguística Aplicada traz importantes artigos na área do ensino de língua a surdos e processos de tradução e interpretação em línguas de sinais.

Abaixo, reproduzimos o sumário dos artigos:




  • A construção de imagens de si em epígrafes de teses de doutorado produzidas por surdos

Ribeiro, Maria Clara Maciel de Araújo

  •  Objetos de aprendizagem para o ensino de línguas: vídeos de curta-metragem e o ensino de Libras - Lebedeff, Tatiana Bolivar; Santos, Angela Nediane dos      

  • Práticas sociais entre línguas em contato: os empréstimos linguísticos do português à Libras - Rodrigues, Isabel Cristina; Baalbaki, Angela Corrêa Ferreira

  •      Ensino de línguas para alunos surdos no Brasil na interseção dos discursos - Piconi, Larissa Bassi
  •  Aquisição de escrita por alunos surdos: a categoria aspectual como um exemplo do processo - Finau, Rossana

  • Fraseologismo em língua de sinais e tradução: uma discussão necessária - Lemos, Andréa Michiles


  • Tradução de literatura infanto-juvenil para língua de sinais: dialogia e polifonia em questão - Albres, Neiva de Aquino


  •  Análise da produção escrita de surdos alfabetizados com proposta bilíngue: implicações para a prática pedagógica - Streiechen, Eliziane Manosso; Krause-Lemke, Cibele


  • Dimensão ergo-dialógica do trabalho do tradutor intérprete de libras/português: dramáticas do uso de si e debate de normas no ato interpretativo - Nascimento, Vinícius


  • Reflexões sobre as práticas de ensino de uma professora de inglês para surdos: a língua de sinais brasileira como mediadora do processo de ensino-aprendizagem - Sousa, Aline Nunes de
  • A aprendizagem coletiva de língua portuguesa para surdos através das interações em língua de sinais - Pires, Vanessa de Oliveira Dagostim

Para acessá-los, clique aqui.